11/03/2020

PALAVRAS


- Que tá fazendo?
- Apagando, apagando tudo...
- Mas! Mas! Mas como assim?! Por quê?!
- Chega... não quero mais...
- Ora, não! Não!!!
- Vou deletar!!! Tudo!!!
- Mas...
- ...sem "mas"...  nada aqui é bom o bastante...
- Espera!!! Calma!!!
- Tem que ser incrível.. precisa ser...
- Cara!!! Bobagem...
- Não é bobagem... eu descobri fazendo ISSO que eu sou uma pessoa extremamente linear... que não tenho pensamentos arrojados...
- Para...
- Veja bem - eu não vivi nada extraordinário.. minha vida é extremamente comum... eu sou uma pessoa... normal!.. muito normal...
- Não precisa ser extraordinário para ser bom, ué! Quem disse isso pra você?!
- Eu...
- Ora...
- Me sinto mal por isso... sensação de que o tempo passou... passou... que eu perdi...
- Tudo que você viu, ouviu, leu - como assim? Tá pirando???
- Não... eu sinto que tô só me livrando dessa mediocridade dentro de mim, sei lá...
- Deixa disso! Quer que sintam pena?
- Não é pena que eu quero...
- Não?
- Pára, caralho!!! Cara!!! ... isso aqui??? Isso aqui não serve pra nada.. qualquer um faria... ISSO!
- Você não deixa eles serem alguma coisa, ora!, apagando tudo...
- ...
- Deixe aí...
- Fariam muito melhor... muito melhor... bicho, por que eu não consigo?
- Ahhhhh!!!! Pôrra!!!! Então só conta!!!! Tem coisa aí, pedindo para ser contada, pôxa vida. Conta!
- Eu? Não consigo. Não sai nada bom... não tá bom...
- Por quê?
- Ahhhh eeeuuu...
- O quê?
- Eu... sinto vergonha...
- Do quê?
- Disso!!! Parece que eu tô fingindo que tenho algo pra dizer, sabe?!! 
- Ahm...
- Pessoas rasteiras como eu deveriam ficar quietas, sabe? Aquelas pessoas que sabem o que e como dizer... elas vão ver  ISSO e vão rir. Elas que, sim, sabem como contar. São fodas!!! Fodas!!! Eu faço e fico pensando no que elas fariam, essas pessoas...
- Bobagem sua...
- Não é! Não é.. eu que sei...
- Pára! Pára de apagar! Não importa se estão vendo, se estão gostando, se estão odiando... só não apaga... 
- ...
- ... deixa...
- ...
- ... nem que seja...
- ...
- ... nem que seja só pra VOCÊ...
- ...
- ...

Palavras são como as águas da chuva. Ou encontram seu caminho ou nos afogam.


por Bob LeMont

15/01/2020

UHUUUUUUUUL


 
- Uhuuuuuullll!!! Yes!!! Yes!!!!
- Que isso? Que festa é essa?
- Eu acabo de receber uma promoção!!! Vou ser gerente do meu setor lá na firma, meu amor!!!
- Uhuuuuuuuuuuullllll!!! Ah, eu também tenho notícia boaaa, amoreeeeee...
- Conta! Conta!
- Eu passei naquele concurso mara!!! Primeiro lugaaaar!!!
- Uhuuuuuuuuuuulllllll!!!
- Bom demais da conta!
- Cê acredita?! Nem estudei!

Telefone toca. 

- Alô?
- ...
- Não! Mentira!
- !!!???
- Uhuuuuuuuuuuuuuuuulllllll!!!!
- Que foi? Que foi?
- Sabe aquela grana que a gente não tava esperando mais? Daquele acerto coletivo na Justiça?
- Não vai me dizer que...
- 500 pau!!!!
- Nossa...
- ...na primeira parcela!! Uhuuuuuuuuuuuuuuullllllll!!!
- Você tá me zuando!!!!
- Juro!!! Tudo nosso!!!
- Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!

Ouvem um grito.

- Ok! Coooooooorta!

Olham em volta. Dezenas de pessoas surgem do nada.  Começam a recolher móveis e utensílios.

- Mas o que é isso?
- Acabou, ué! - informa a pessoa que parece estar à frente da movimentação.
- "Acabou" o quê?
- Owww!! Esse sofá é nosso...

Suspira. Mostra uma papelada que estava na prancheta em suas mãos.  Está escrito na capa: "roteiro" .

-  Tá aqui... babababa... "recebe promoção"... bababa... "passou no concurso"... babababa... "ação na Justiça"... babababa... ó!!! - apontando pra linha - "Comemoram as boas notícias. Tudo parece caminhar pra um final feliz, até que um meteoro cai e destrói metade do Brasil. Não há sobreviventes. Fade final. Lettering. Fim."

Não entendem nada. Aquelas pessoas todas estavam desmontando a casa, carregando móveis e utensílios para algum caminhão próximo. De repente, tudo parece parte de um cenário em um estúdio gigantesco. Percebem que as figuras tem asas e auréolas. Inclusive aquela com a prancheta.

- Mas... mas... como assim?.. pra onde vocês tão levando nossas coi..?
- Ahhhhhh ainda tá no personagem, né, meu bem? É... tá certo... demora... quando não são dos mais inteligentes...
- Ow!!! Não fala assim, hein?! Quem você pensa que é?
- Olha! Vocês vão lembrar quem são de verdade daqui a dois ou três dias. Depois tem outro set, outra história. Tranquilo, tá? Eu sou Pranchè, tá? Chefe da Produção de núcleo. 
- Cara!!! Não tô entendendo é nada... ooooow, volta aqui com meu computador...
- Calma! Gente!!! Eu sei que o filme da vida de vocês tava indo bem pra caramba. Mas...
- ..."filme da vida..."??
- Vocês são do elenco. Seus amigos, parentes, vizinhos. Todo mundo. Atores e atrizes. 
- Ahm??? 
- Claro! É tudo filme, gente. Não tem jeito de as coisas acontecerem como tão acontecendo. Vocês não desconfiaram?

Começam a lembrar dos últimos anos. Tava esquisito, mesmo. O Brasil estava parecendo uma série do Netflix mal escrita.  Praticamente, uma novela das nove.


- O Michel, então..?
- ...aquela cara esquisita dele? Dedinho pra lá, dedinho pra cá...

Pranchè ri.

- Vampiro, lógico que é... - diz, abrindo o roteiro - mas o público só vai saber de tudo depois de...

Nem querem saber do spoiler. Estão em choque, aflitos. Interrompem, querendo mais informações.
- O MBL? O Frota? O Gentili? A FIESP? Os Bols..????
- ...aaaah, os roteiristas acharam que precisava dar uma escrotizada a mais, sabe? Temperinho na trama, gente... no fim, dá tudo certo...

Abraçaram-se. Comemoraram. Queriam ver a cara daquele tiozão reaça agora. Pranchè explica que tudo que viveram não passava de uma megaprodução cósmica, onde nem tudo é o que parece.

- Então a Giselle Bündchen...
- Efeito especial, pôxa... toda feita em computador...
- Óbvio!!!
- Ah, eu bem que desconfiava!!!!
- E o Olavo??
- Efeito também, mas deu problema...
- uhmmmmm!!! 
- Mas aí... a Terra é plana?
- Claro...
- O quê ?????!!!!
- ... que não!!! Cês tão doidos?? Beberam cerveja estragada??

Risos.

- Espera! Espera! - interrompe - Mas por que o NOSSO filme acabou assim tão rápido?
- Não! O filme tá rolando. Acabou a participação de vocês, né? O Brasil se recupera desse meteorinho aí em dez anos.
-  Mas... precisava de um meteoro?
- O público tá pedindo esse meteoro faz tempo. Mas relaxa, gente... é só um filme, tá...
- Mas o que foi que a gente fez pra sair do filme assim? Logo agora????
- A gente ia ganhar uma grana, sair da pindaíba, meter o pé na jaca!! Pô!!!!
- Deixa eu falar... - suspira, sem muita paciência pra explicar - The Boss tem um humor esquisito... é temperamental, pôrra... e vocês gritaram a caralha da palavra seis vezes! Seis vezes!!! Sabem que The Big Boss não gosta...
- Gritamos o quê?
- Aquela palavra com U...
- U*******...???

Corre tapar a boca.

- Ow ow owwww!!! Você pirou? Seis é o limite!!! Das últimas que gritaram sete vezes, choveu quarenta dias e quarenta noites... Sodoma e Gomorra foram pro saco... o FHC vendeu a Vale quase de graça... por favor, para!!!

Nunca. Em hipótese nenhuma. Jamais grite U*********... mais de seis vezes!!!

Sabe?  

The Boss pode estar ouvindo. 
E é uma figura sacana e rancorosa pra caramba...


 por Bob LeMont

17/10/2019

QUASE LÁ



Hoje me dei conta. 

Estou morrendo. Eu disse hoje ? Bobagem ! Rá ! Não foi nem hoje, nem ontem que fui advertido. Eu sempre soube, só não queria admitir. Uma reflexão simples, de agora mesmo: você começa a morrer do instante zero em que sua célula começa a se dividir no bom e velho útero materno. Sei lá quem pescou isso primeiro. Grande verdade! Nascer é pré-requisito para morrer. 

Pronto. 

E cada minuto que passa, é um a menos para o fim de tudo. Meu adeus se aproxima e com ele o momento da verdade. Saberei finalmente sobre muita coisa que me encana há décadas. Não sei de onde vem isso. É instintivo ? Sempre achei que só viveria até os 50, não me perguntem por quê. Para provocar algum sentimento de pena, ou aporrinhar a família, fazer chantagem emocional? Talvez, ao estipular esse limite, eu quisesse, inconscientemente, me poupar de ver pessoas que eu amo estiradas em um caixão ou indo pro crematório. 

Vai saber. 

A mente humana é muito complexa. A morte é um de meus fantasmas, que há tempos me cercam à noite e me fazem chorar de medo. Existe Céu ? Porque o Inferno é aqui mesmo, disso eu sempre tive certeza. Esse troço de diabo não existe, cara. É só uma metáfora pra tudo que nos tira do prumo, que nos prejudica. E nem isso, já que muito do nosso prazer é mal visto por aí. 

Malditos fundamentalistas. 

Mas... e Deus? Existe? Morrer... dói ? Quero dizer... dói muito ou... por muito tempo? Mesmo a morte mais besta? Deveria estar feliz, afinal, a hora das respostas se aproxima. Mas a dúvida me corrói - e se não houver nada de bom nisso, hein? E se nos restar apenas um imenso vazio, idêntico ao momento anterior à nossa existência? A não-existência, como é? Desliga tudo e pronto? Caramba! Não é justo. Cristãos se preparam tanto pra vida eterna, há tantas promessas paras os árabes, os judeus ficam horas de cara pra um muro, os budistas chegam a comemora-la. Já pensou? Morreu, acabou...

Sacanagem, desperdiçar saquê assim ! 

Bom. Positivismo. Não adianta reclamar de véspera. Estou indo. Logo saberei. Não demora. Cada linha que escrevo me deixa mais perto da última frase. Gostaria que ela fosse genial, que fosse lembrada para sempre. Mas a pessoa normalmente é lembrada pelo conjunto da obra, pelo que ela e sua arte ou ofício representaram num contexto geral. Uma frase não me lançaria rumo à eternidade. Aliás, grande merda minhas palavras ficarem ecoando depois que eu me for. Depois, foda-se. 
 
Morri mesmo!

Quem vai querer lembrar de mim? Ou “até quando”? Meus filhos carregarão algum carinho por mim? Lembrarão de que jeito? Terei um rosto para eles? Sabe, o esquecimento também é um processo de morte. Se nos esquecem e de vez em quando nos lembram, nos enterram quantas vezes? Quantas lágrimas ainda derramarão ? Talvez isso seja proporcional ao bem que lhes fiz. Ou o mal. Dualidades, dualidades. Ah! Quem sabe? É algo que só aflora depois que partimos. 

Antes é tudo teoria. 

Tudo conversa de psicanalista. No mínimo, papo de boteco. Depois? A prosa é outra. Só fazendo que nem eu tô fazendo, mesmo. Morrendo. A hora urge. Quem me abandonará primeiro? Meu coração ou meu cérebro? Fato - alguns minutos (dez, eu acho) sem oxigênio matam os neurônios. Esses que estão aqui, agora, me ajudando a raciocinar para esta crônica. Qual deles vai asfixiar primeiro ? Sei que são as únicas células que não se regeneram em todo o corpo e que têm exatamente a minha idade – estão todos comigo desde que eu nasci, já que não tive perda de massa encefálica nem fui vítima de traumatismos graves. Neurônios, atenção! No fim vamos nós todos, juntos, direto pro beleléu. Ou não.

 Ou talvez só vocês. 

Uai ! E espírito tem cérebro, cara ? De onde vem a consciência, o saber de uma alma samaritana? E lá do outro lado – se houver outro lado – as criaturas pensam ou apenas contemplam? Imagino. Se Jesus que, dizem, andou cá entre nós, era um cara tão esperto... então a eternidade deve ser um lugar de pensar! Mas isso pra mim é muito tranqüilo de dizer. Se há como acumular conhecimento, tem que haver um equivalente etéreo pra nossa cuca. Ora ! A não ser que Deus seja uma espécie de computador central que distribui informações às criaturas celestiais e também a todos os desencarnados. Uma espécie de abelha-rainha. Sabe o Império Borg ? 

Ah, esquece...

Minha ruminança com relação ao cérebro tem uma razão plausível. Eu acho que ele é nosso verdadeiro paraíso. Que quando a gente morre, é ele que assume a rédea. Ele que arma tudo pra gente sair em grande estilo. Ou não. Lógico ! Ele contém nossas verdades e as nossas mentiras de todos os dias. O endereço do real e do imaginário, do corriqueiro e do fantástico, tá tudo na nossa cabeça. Injustiça. Os poetas e alguns cardiologistas nos fizeram acreditar que o segredo da vida estava no coração. Que era ele quem amava, que era ele que nos fazia sentir a existência nossa e a dos outros. Até nossos sexos estiveram sempre em posição mais importante no ranking dos órgãos vitais.

Não ! 

Com o tempo você aprende a sobreviver sem pau, nem buceta - não necessariamente nessa ordem. Ok: quem gritou “E o cu”, aí? Chega de sacanagem - o cérebro, esse injustiçado, era quem fazia tudo acontecer. E, pela lógica, é ele quem deve encerrar as nossas transmissões. Como num sonho em que espaço e tempo não batem. Saca, né ? Aquele pesadelo terrível que parece que não acaba nunca ? Ou aquela experiência incrível, que faz você acordar em dúvida sobre se aconteceu ou não. Rá, mas olha só que você não vai acordar ! É !! Aí que está ! Gradualmente, sua consciência vai apagando, apagando, apagando... e morrer é isso. 

Ao menos nesta minha viagem. 

Pior é que se eu estiver certo, ninguém vai ficar sabendo. Talvez nem eu. Ou você percebe na hora que está sonhando as coisas? Sua imaginação induz a acreditar em tudo que seus outros terminais nervosos lhe dizem. Claro. Quem está ou já esteve nas últimas costuma dizer que um filme da vida dela passa diante dos olhos. Eu acho que é isso, com as idéias desacelerando na medida em que a gente tá indo embora. Daí parecer uma eternidade. E é. A única que vamos conhecer. Mas também, uma experiência de quase-morte não é uma experiência de morte ali, na tora. Na batata. 

Aí, só morrendo. 

Posso estar sendo injusto com a criatura que, supostamente, criou isso tudo. Cenários, personagens, figurinos, argumentos. Né? Pode realmente existir, talvez não como nós imaginamos. Deus criou o homem ou terá sido o contrário? Se Ele existir, que me perdoe. Se tudo sabe, entenda que, no fundinho, torço por Ele. Fui muito inspirado por Ele em várias de minhas atitudes, ainda que o medo pudesse ter motivado outras tantas. Se não - se Ele não existir - ... puxa... que pena, viu ? Ao menos a criatura que o inventou e seu cérebro genial sejam capazes de um último esforço criativo antes do grand finale. Mas isso eu só vou ficar sabendo na hora. Calma, meus neurônios. Coração, não se afobe. 

Estamos quase lá. Quase lá.



Por Bob LeMont

11/10/2019

ENTREVISTA DE EMPREGO



- Bom, a gente já conversou bastante...
- É! Nossa... nem senti o tempo passando... o papo tava ótimo, nem parecia entrevista de emprego...
- Ah, hoje em dia as equipes de RH trabalham muito com esse coeficiente de humanidade no trato com os candidatos, sabe?
- Pois é, muito legal. Já dá uma ideia do que a gente vai encontrar na empresa, né?
- Sem dúvida...
- Bom! E daqui pra frente?
- Só aguardar que a gente vai entrar em contato contigo. Em uma semana no máximo. 
- Nossa, que rápido!
- Pra que deixar os candidatos à vaga sofrendo, não é mesmo? 
- Nem me fala, já tô penando há mais de um ano e meio...
- Olha, mas a sua entrevista foi muito boa. Você é uma pessoa extremamente qualificada. Tem experiência, formação, perfil psicológico ideal... agora depende dos gestores...
- Ai, tomara né!
- Confiança porque... eu acho que a vaga é sua!
- Opa! Então tá, eu vou indo porque...
- Ah!!! Só mais uma coisinha que eu esqueci de perguntar...
- Ahm..?
- Tipo assim... você sabe que, nos tempos atuais, por causa das redes sociais, tem muita discussão né...
- Ah... é, sim...
- ... as pessoas lamentavelmente ficam brigando por tudo... música, programa de tevê, time de futebol...
- Uhm...
- ...até política parece que virou briga de torcida, né?
- Sei...
- ... brigam por causa de religião... de cor da pele... com as questões de gênero, né... 
- Pois é...
- Então! ... vem cá.. por falar nisso... você tem, assim, alguma preferência...
- O quê?..
- Alguma tendência...
- Oi?
- Você gosta de...
- Vem cá! Você tá querendo saber se eu sou hétero ou..?
- Não! Rá rá rá!!! Aqui na empresa não tem nada disso. Pirou? Todo mundo é tratado igual, a nossa política interna sobre isso é totalmente desencanada.
- Ah, legal...
- A gente quer saber de você... politicamente, sabe?
- Como?!
- Você seria assim.. uma pessoa mais de centro.. mais de direita.. centro-direita... ou... centro-esquerda... teria um partido de preferência e tal...

Pausa. Olha bem nos olhos da figura do RH. 
Sobe na cadeira.

- Você quer falar de política?? Tá bem. Olha aqui, pessoa do RH! Eu votei a minha vida inteira contra esse país de coronéis e em favor de governos que abrigassem reformas importantes, trazendo ideias novas que beneficiassem especialmente os pobres! Que governasse para quem sente fome, gente sem vez para adquirir casa pra morar, os flagelados, os desfavorecidos de sempre. Votei em líderes voltados para as minorias, que enfrentassem de frente questões de inclusão em amplo espectro. Acredito, sim, no poder do povo, para o povo. Sempre votei contra esses fundamentalistas, fascistas, que odeiam tudo isso que eu acredito e todos que eu defendo. E eu nunca vou abandonar o sonho que eu cultivei por décadas, contra tudo e contra todos. Enfrentado parente chato, chefe escroto, toda espécie de cretino e de cretina que se acha mais foda porque tem grana, porque puxa o saco dos maiorais pra se sentir parte dessa elite escrota, que tá cagando pra pobre. E eu sei que tem muitas empresas aí querendo distância de quem peita mesmo o sistema, que faz greve, que enche o saco de patrão que pisa na bola, que luta por direitos. Olha, pessoa do RH!!! Eu já perdi emprego por pensar desse jeito, sabe?? Olha!!! mas foda-se! Eu sou contra esses merdas todos! Tá entendendo???!!!

Pausa.

- Oi? Oiêêêê... tá tudo bem, meu bem? 

A pessoa, que passou o tempo inteiro calmamente sentada na cadeira em frente à gerência de RH, e que estava há pouco com o olhar fixo na janela da sala, agora parece um pouco desconcertada.

- Uhm?? Opa! Desculpa, eu me distraí um pouco...
- ...pois é, você ficou aí... com o olhar distante... sem dizer nada...
- ...você... é... você... perguntou sobre a minha preferência política, né isso? Se eu gosto de algum partido e tal...
- Olha, pode ficar relax viu?! Parece que você grilou, né? Parou pra pensar um pouquinho - preocupa não, tá? Claro que você não vai perder essa vaga por causa de política, pôxa...
- É...
- Uma pessoa tão qualificada... tão experiente... tão  próxima de conseguir um emprego depois de quase o quê? Um ano e meio, né?..
- .. dois anos e meio...
- Dois anos e meio sem emprego fixo? Nossa!
- É...
- Então?..
- Ahhhhh... eu... 

Respira fundo. Olha para o vazio.

- ...não sou muito fã de política não, sabe...

UM DIA

 
Um dia, somente um dia
Nada será por acaso
Nada será por à toa
Tudo será alegria
Na palavra, na pessoa
Um dia, somente um dia
Tudo de bom, numa boa
Haverá o que não havia
Uma dor que já não doa
Um bem-estar que não destoa
Não será vazia
Tampouco oca
Essa vontade que ecoa
Um dia, somente um dia
Será certo ser torto
Por afeto ou consolo
Antes belo que tosco
Se não completo, ser muito
Nem malvada nem maldita
A Liberdade, revolta
Libertará tudo à volta
Um dia, somente um dia
A coragem é bonita
Feio é quem não acredita
Ainda que tardia
Por todo sempre
Mais um dia



06/10/2019

ODE AO FIGURANTE DESCONHECIDO

Assisti a Grease umas mil vezes. Vamos combinar. Uma merda de filme. 


Uma história sem pé nem cabeça, um texto chulé pra caramba, densidade zero. Mas, pô... eu amo Grease! Menos pela sua dramaturgia - praticamente ausente - mais pela trilha sonora. Certamente, um daqueles filmes que leva a gente pela orelhas. 

Barry Gibb, o bonitão dos Bee Gees, vivia mesmo uma fase mágica. Ele escreveu e produziu a maioria das canções, algo que já havia dado certo antes com os Embalos de Sábado à Noite. Gibb soube traduzir musicalmente, como ninguém, todos os desejos de uma geração. Também é inegável a influência daquela dupla de protagonistas sobre a audiência: John Travolta e Olivia Newton-John formavam o casal mais do que perfeito naquele final dos anos 1970. Eu, que secretamente amava Olivia, só permitia que Travolta lhe cortejasse. Eles eram incríveis juntos. 

E Grease era o grande momento deles no cinema.

Mas lá pela milésima exibição, entre um ou dois suspiros por Olivia, percebi um personagem no qual eu nunca havia reparado antes. Não tinha fala alguma, não namorava ninguém, mas tinha um carisma absurdo. E ele começou a me chamar a atenção. Poderia ser mais um figurante, entre dezenas que participam de musicais nas telas. Mas a performance dele em We Go Together, simplesmente, me hipnotizou. Duvido - se você, como eu, é fã de Grease - que nunca tenha visto ele. É o sujeito de camisa verde, que inventa uma dancinha, obviamente inspirado em Groucho Marx, nesse grand finale do longa. 


Depois que eu percebi esse cara, nunca mais tirei os olhos dele. 

Eu sou fã do Groucho, talvez isso tenha me despertado. Mas havia algo a mais. Uma energia qualquer, um brilho que fazia o cara se destacar numa multidão de extras, e que o tornava parte importante daquilo tudo. Ao menos pra mim. Aí virou meio que uma obsessãozinha: comecei a procura-lo em outras cenas. Fácil. 


Lá estava ele também da festa no colégio, aquela que tem o concurso de dança. Aliás, onde houvesse um rebolado coletivo, ele estava lá no meio. Fazendo a parte de tudo, com a mesma boa vibe que me cativou em We Go Together. Divago. Ele parecia saber que tinha poucos minutos para brilhar. Sem falas, sem protagonismo, sequer coadjuvância. Era um extra, caramba. Estava lá pra ajudar a encher a tela. Somente executando o que sabia fazer de melhor: dançar. 

E ele fez.

Por incrível que pareça, não fui somente eu quem reparou. Uma pesquisa na internet me revelou a admiração que esse personagem anônimo despertava em inúmeros fãs do filme. A busca pelo dançarino da camisa verde retornou uma dezena de artigos. Todos com observações muito semelhantes às minhas. Citavam sua energia, vigor e entrega, que fizeram com que ele saltasse aos olhos do público e ganhasse seus minutos de fama ante celebridades planetárias. O figurante desconhecido já não era mais assim tão figurante. Menos ainda desconhecido. Ele tinha nome.

Daniel Levins.

O artista mereceu citação no New York Times em 2015. O jornal dizia que "Daniel Levins era um dançarino às vezes conhecido profissionalmente como Daniel Levans, que ganhou notoriedade na adolescência na aclamada American Ballet Company de Eliot Feld e como dançarino principal no American Ballet Theatre na década de 1970."  

Ainda graças ao NYT, fico sabendo que ele já havia marcado o público em outro papel pequeno, um ano antes de Grease. Era The Turning Point, com Anne Bancroft e Shirley MacLaine. Esse filme também apresentou Mikhail Baryshnikov ao público em geral. Um longa sobre dança, com dançarinos profissionais fazendo papéis secundários. Nesse ele tinha até fala. E havia na reportagem algo a mais sobre o sujeito. Aliás, era o mote da matéria. 


Lamentavelmente, Levins havia morrido.  

Segundo Eugene Gabriel-Thomas Walsh, marido dele, Daniel foi vítima de uma infecção pulmonar naquele 2015. Tinha 61 anos.

... enfim...

Sim, Daniel Levins estava morto. Mas sua performance no musical de Travolta e Olivia, definitivamente, não havia passado despercebida. Sobre ela, a colunista descreveu: "Na versão cinematográfica de 1978 do musical da Broadway, o virtuosismo energético de Levins como o garoto de verde no final da dança provavelmente roubou o show de John Travolta e de outras estrelas do filme."

Eu não tava maluco. 

O cara realmente tinha algo a mais. Pra mim, pra tal da Anna, e pra outros tantos aí que eu nem conheço. Teve a oportunidade da vida de dar seu show. E deu. Sei que hoje eu assisto a Grease pelo John Travolta, pela Olivia Newton- John, pela trilha sonora inesquecível e!.. por Daniel Levins. 

É, o figurante desconhecido. 

Um pôrra dum extra. 

Mas não um extra qualquer. 

Mesmo sem destaque nos créditos, sem uma ceninha solo sequer, ele teve seu breve momento eternizado pelo cinema. Fez o que sabia fazer, provavelmente com a paixão de sempre. Ou estava num dia inspirado - vai saber? Ele poderia ter passado batido, tantos passam. Mas Daniel Levins não passou. 

Vida longa aos que não precisam de holofotes para brilhar.

Robson Leite


07/09/2019

MORCEGÃO


Brasil, em algum lugar no meio da amazônia.

As portas da penitenciária vão fechando às costas a cada avanço do fiel escudeiro. Os sons daqueles prisioneiros - homens sádicos,  a maioria de loucos - berrando palavras incompreensíveis, não parecem assustá-lo. Por detrás da aparência frágil de um homem supostamente sexagenário, está um nobre servidor sem medo e fiel a seu empregador. Não à toa. 

Alfreddi está a serviço da família há décadas por conta disso.

Ele caminha lentamente pelo longo corredor de Arkam 2, cujas luzes piscam por falta de manutenção e emprestam um atmosfera ainda mais assustadora ao lugar. Carrega uma maleta dessas de viagem, debaixo do braço. Está claramente desconfortável. Aquela instituição foi especialmente construída para abrigar prisioneiros insanos e de alta periculosidade. 

Não alguém como seu patrão - o milionário Brussi. 


Os seguranças até fizeram uma - breve - revista na entrada do presídio. Mas teve vista grossa, claro que teve! Sabiam, pelo vestuário, a quem o velho representava. O terno de corte clássico, com gravata combinando com lenço e meias, além de sapatos italianos, impecavelmente polidos e engraxados. Claro. 

Já davam a entender que ele estava junto com gente graúda. 


Ao adentrar na ala reservada para o encontro, Brussi e Alfreddi trocam olhares brevemente. Antes que falem qualquer coisa, o prisioneiro faz um meneio com a cabeça, apontando para o teto. Alfreddi logo percebe que estão sendo monitorados por uma câmera. Tranquilamente, sem gestos bruscos, parece consultar a hora em seu relógio de pulso. 

O sorriso do mordomo é a deixa para o início do diálogo.
 
- Estamos seguros, Alfreddi?
- Sim, patrão Brussi. Agora os guardas estão assistindo a um "encontro" nosso em computação gráfica, nada ameaçador.

Numa sala próxima, seguranças penitenciários nem perceberam quando o serviçal acionou, apenas pressionando um botão escondido na manga do paletó de corte sofisticado, um aparelho capaz de gerar falsas imagens do encontro entre eles.  

Sim, o computador da caverna possui recursos para construir esse tipo de farsa para despistar olheiros.

- Patrão, se me permite a sinceridade... 
- Não estou muito pronto para diálogos sinceros hoje, Al... 
- ... foi um gesto em demasia estúpido...
- ...freddi?!
- ... senhor... se deixar prender assim foi algo bem idiota... 
- Como se diz? 
- Patrão Brussi!
- Assim é melhor. Trouxe o que eu pedi? 
- O senhor é o Morcegão. Deveria dar bons exemplos...
- ...trouxe? - insiste

Morcegão. O alterego do playboy multimilionário que, durante o dia, aparenta ser um grande especulador financeiro, dono de empresas, atuando em diversos setores da economia brasileira. Durante a noite, no entanto, veste uma fantasia que esconde sua verdadeira identidade e persegue criminosos, colocando-os atrás das grades. Bem.

Agora é ele que está preso.

Alfreddi mexe na maleta que tem a tira-colo. Poderia sacar de lá uma ferramenta qualquer para facilitar a fuga do patrão. Mas era apenas realmente o que Brussi pediu: uma garrafa de whisky. Serve seu conteúdo ao patrão num copo com gelo vindo do mesmo lugar. 

Junto com a dose vai um olhar de repreensão do velho serviçal.

- Você sabe que eu poderia sair daqui a hora que eu quisesse... - diz, bebericando - ... caramba, eu precisava disso...
- Graças às suas habilidades de "vigilante", senhor?
- Não. Graças ao dinheiro, Alfreddi!
- Isso aproximou o senhor de supervilões.
- Eu não estou próximo de nenhum bandido. Eu uso esses vermes.
- E agora está aqui, preso com um monte deles, por causa disso. Foi pego pela Polícia Federal, patrão Brussi!
- Sabe que eu sou inocente...
- Eu sei?
- O Juiz está por trás disso. Você sabe muito bm pra quem ele trabalha.
- Ele quer o Molusco. Apenas o Molusco.
- Ele já tem o Molusco! Agora ele e as pessoas por trás dele querem somente Poder. E isso eles compram com meu dinheiro. 
- Ora, mas esse expediente não é novidade para o senhor...
- Alfreddi...
- ... que comprou muita gente. Deputados, senadores... seus negócios só se alavancaram graças às propinas pagas...
- O Brasil funciona assim, Alfreddi. Nós sabemos disso. Fiz isso para poder continuar combatendo o crime.
- Deixe eu entender: o senhor combate o crime.. praticando o crime? Pelo dinheiro, simplesmente?
- Alfreddi, você acha que eu pago a gasolina do morcegomobile com o quê? De onde você pensa que vem a grana do IPVA daquela mansão? Como pagamos a conta de luz da caverna? Aquele maldito computador puxa muita energia, sabe?... e toda essa tecnologia - que estamos usando neste exato momento com os guardas - não sai de graça também...
- Patrão Brussi...
- Chega! Sabe por que eu não te mando embora? Porque você me criou desde criança... foi como um pai pra mim... mas não tem o direito de ser tão sincero assim comigo. Não agora! A situação é delicada. Agora eu preciso do dinheiro pra sair daqui, Alfreddi. Pague a fiança e vamos embora...
- Sinto muito, mas não posso.
- Você sempre tão ético, não? 
- Seu pai deve estar se...
- .. contorcendo na tumba? É isso que você vai dizer? Justo sobre o meu pai? Memória curta, não? O Morcego só existe por causa dele, Alfreddi. Não se esqueça.
- Ele não criou o Morcego. Ele criou o senhor. O Morcego foi uma resposta dura para um momento duro. Violência não se resolve com mais violência. Eu sempre lhe disse isso.
- Não me venha com lição de moral, velho! Você sabe que não posso deixar barato o que fizeram com meus pais.
- Vingança nenhuma vale a pena. Deveria ter buscado a Justiça pelas vias tradicionais ao invés de faze-la com as próprias mãos.
- Justiça? Aqui é o Brasil, Alfreddi! Alguns dos caras malvados que eu persigo usam toga!

Ouve-se um bip em crescente. A bateria do dispositivo que gerou a distração eletrônica está acabando.

- Temos mais cinco minutos. Onde está? Preciso em notas de 10 e de 50...
- ...eu não trouxe dinheiro algum, patrão Brussi.
- Como? Alfreddi, eu preciso pagar os guardas...
- ...eles bloquearam todos as nossas contas, senhor...

Pausa.

- Mesmo as secretas?
- As da Suíça foram esvaziadas. Eu sinto muitíssimo.
- Não é possível... - desacredita, praticamente engolindo whisky e gelo juntos.
- Finalmente conseguiram tirar seu único poder de verdade, Patrão Brussi.
- Droga...
- O senhor está pobre. Totalmente pobre.
- Caramba! Bom... ao menos você finalmente vai poder se aposentar, Alfreddi...
- Com essas novas regras da Previdência? Eu vou ter que arrumar outro milionário para servir até os 100 anos, isso sim...
- Droga, droga, droga...
- Não vai ter jeito. Se quiser sair daqui... vai ter que assinar aquela delação, Patrão Brussi.
- Eles querem que eu entregue todo mundo, Alfreddi! TODO MUNDO...
- Todo mundo, não...- balbucia - só o Molusco já resolve...

Brussi respira fundo. Sabe muito bem quem está por trás de tudo isso.

- Maldito Palhaço!


por Bob LeMont


LINGUA

A língua, esse pedaço de carne cercado de gente por todos os lados.  A turma da biologia vai dizer que ela não passa de um processo muscular...