16/06/2018

BOB NA COPA (05) - PELADO EM ROSTOV

????, RÚSSIA - 16 FEV 2018

Acordei sem saber muito bem onde que eu estava, pra variar. Um gosto horrível na boca. Parecia que eu havia mastigado um arenque defumado. Vivo. Aquela ossada de peixe ao meu lado me assustou. Um pouco. A última coisa de que me lembrava era do Putin sem camisa, montado num urso, falando em invadir a Casa Branca. 

Mas acho que foi algo que puseram na minha bebida.

Putin, sem camisa, montado num urso: sonho ou realidade?
 
Procurei logo por um jornal impresso. Não queria ver as notícias sobre Putin e um urso. Foi para cobrir o meu gelado bilauwski - sim, acordei nu, também pra variar. Por sorte, quando ainda estava sóbrio, escrevi o nome da cidade e do hotel onde estou na palma da minha mão. Sou esperto ou não sou? Como só entendo o cirílico quando bebo, pedi pra uma moça que passava para que lesse pra mim. Aqui na Rússia, eu já disse: o povo não estranha nada.

A Arena Rostov, às margens do Rio Don: palco de estreia do Brasil
Ela  me cobrou $100.

Não para traduzir o que estava escrito, já que ela disse saber bem russo e inglês. Mas.. havia algo a mais... 

Ela agarrou meu braço com determinação, puxou minha mão pra bem perto dos seus olhos, atenta à palma. Respirou fundo, como se mentalizasse algo. Aí disse o nome do hotel e revelou ainda que gente estava em Rostov, ao sul da Rússia. Esse último... ahmmm... acho que ela saberia, mesmo sem ler minha mão. Mas a moça viu mais. Me garantiu que era cigana e tal e coisa. 

Você daria sua mão pra essa mulher ler?

E viu meu futuro. 

Falou sobre uma farsa prestes a ser descoberta. Que eu teria, cedo ou tarde, que subornar alguém para escapar de chantagem. Entendi. Dei $200 pra aquela bruxa ficasse quieta e seguisse seu caminho.

Tudo em Dotz.

Calor! Calor! Amanhã joga o Brasil. E é aqui. As festas lá em Moscou estavam ótimas, mas como diabos vim pra cá? Custei a lembrar: cheguei em Rostov de carona, no ônibus de um grupo de torcedores brasileiros com seus indefectíveis adereços em verde e amarelo. Ficamos muito amigos. Estávamos chapando no Mausoléu do Lênin. Foi louco... tiramos o velho Leni pra dançar e tudo. Esse meu amigo Putin sabe mesmo dar uma festa.

Que noite! Que noite!

Torcida em Rostov: quem diabos é esse tal de Aussie?
Estranho. Mas os caras, visivelmente brasileiros, não falavam uma palavra em português - acho que eram gaúchos. Estavam a caminho de Kazam, a quilômetros daqui, mas - sob efeito do álcool e de otras cositas que arrumei pra eles - fizeram questão de me dar carona. Turma alegre, turismando pelos campos russos. Certamente - esperando o jogo com a Suiça deste domingo. Pareciam ser do fã-clube de algum jogador. Um tal de Aussie. Quem será?


Deve ser de lá...

Falam que Rostov é tipo o Rio de Janeiro, só que melhor. Bonito e perigoso mas, pelo menos, não tem carioca. Não tinha, né? Tá cheio agora, por causa do jogo. É fácil 


Torcedor do Flamengo com sua ushanka natural
diferenciá-los dos demais brasileiros. Você sabe que é do Rio porque os caras usam camisa do Flamengo, sunga e chinelo de dedo. Todos. É uniforme. E nesse frio! Ouvi dizer que os bandidos da cidade souberam que eles viriam e estão meio que com medo.

Maldade.

Amanhã falo mais sobre Rostov. A ressaca tá forte e hoje ainda tem a estreia da Argentina. Invadiram Moscou - coisa que nem Napoleão e Hitler conseguiram. Mas agora é verão! Adoro ver esses caras torcendo. O primeiro título foi roubado em 1978, o  último em 1986 - com gol de mão, com o Supremo, com tudo. 


Argentinos na Praça da República em Moscou

E nunca mais. 

Cinco finais, e só dois títulos. Ou seja: não ganham nada, mas se acham os fodões. Só que é muito divertido vê-los torcendo. Sempre inventam músicas muito criativas e gritos de guerra super originais, pra compensar as frustrações. Seja pelos títulos importantes porém distantes ou mesmo por aqueles eventuais êxitos em torneios menores.



Lembra algum clube brasileiro ou não?   

Fui tentar descansar aqui, mas tava com medo de sonhar com o Putin montado num urso de novo. E não é que eu sonhei? E apareceu um leão, bicho... com o Trump!!!  aiaiai.. malditos arenques...


ps: Amanhã tem mais... ah! Tô casando cenzão na França e no Peru... e cinquentinha na Nigéria e na Islândia... torço pra que puxem pelo menos um empate...




Bob LeMont
provavelmente, não está nem nunca esteve na Rússia
certamente,é um personagem fictício 
mas é gente boa 

15/06/2018

BOB NA COPA (04) - O LOBO DO PARQUE GORKI


Apesar do frio, depois da abertura teve pelada. E pelado.
GIRASSÓIS DA RÚSSIA, MOSCOU - 15 JUN 2018 

Que comemoração linda, memorável! Não, aquela feiosinha antes do jogo não! A de DEPOIS do jogo de abertura. Foi a mais loka na qual já estive, desde o evento pós-cremação do pai do Keith Richards. Cara! Acho que bebemos até gasolina importada do Brasil - imagina o preço daquilo? Mas agora a Rússia se rendeu ao capital. Joga de vermelho, mas é capitalista. 


Chupa, Karl Marx!  (por onde anda?)
O charme e o veneno da mulher russa: cuidado com o que beber

Nem sei quem ganhou. Tava todo mundo mucho loko. Tinha gente de túnica, gente de ushanka, até um cara peladão.

Esse último era eu, mas o povo até que aderiu depois.    

Em meio àquela celebração, fui apresentado ao mascote oficial da Copa. Sim, ele foi. Ele está em toda parte, na verdade. 


O Zabivaka é um lobo da estepe - na verdade é um cara vestido como lobo, tá? - que bebe vodka pra cacete e depois sai jogando bola. Não sei se o alcoolismo era só do cara ou se fazia parte do personagem. Tanto faz. Pode-se beber à vontade que antidoping não pega na Rússia. Aliás, se as drogas não fizerem efeito e não melhorarem seu desempenho por aqui, é o bicho que pega. Por isso, cuidado com o que te servem.

Pode ser veneno também...



O bar da Liga do Papai em Moscou: mamãe que não nos veja
Emendamos um tour pelos botecos de Moscou. Alguns permanecem abertos madrugada adentro. O Liga Pap é um deles. Parece uma caverna. Tem que reservar - mas quando você está com o mascote deles, todas as portas se abrem. 

Muitos drinkzinhos variados. A cerveja é boa. Não me perguntem preços, que não paguei nada. O que o lobinho ganhou de birita!!! Onde fica? Sei lá, ainda não deu tempo de atualizar meu cirílico. Não tem erro - perto dali tem um monastério gigante. E como pra eles a religião é o ópio do povo, é tipo a crackolândia russa.

Sei que eu e meu parça em pele de lobo enchemos a caveira. 

Esse é bom de copo, pega geral e todo mundo respeita; ao lado dele, o Ronaldinho Fenômeno

O Zabivaka é muito popular por aqui. Está em tudo. Camisetas, bandeiras, menus de restaurante. Me disseram que tem até camisinhas oficiais. Você aperta um botão, elas uivam - não acreditei muito não. Mas esses russos sabem fazer mascote fofo, viu!? 

 

Me lembrei do Misha, aquele ursinho tuchi tuchi dos jogos olímpicos de 1980. Gostava muito dele, mesmo sendo comunista e comedor de criancinhas. Mas um lobo tem mais a ver com essa nova Rússia capitalista, né? - come de tudo, sem remorso. 


O Misha, pelo menos, chorava. E voava!!! Por onde flutuará? Terá encontrado o padre? Ah, os caras do PT daqui sabem fazer. Aquele tatu feioso da Dilma, na outra copa, não chega aos pés. Fuleco... hum... tão feioso que sumiu no meio do Mundial.

Deve ter sido vendido pra fazer bola. Superfaturado, claro.

E o Fuleco não passou a bola pro Kamivaka na abertura: problemas no orçamento pra propina?


Falando na pelota, não curti. Acho que a primeira coisa que não me pareceu ok nesta Copa. Detesto futebol, mas as táticas de marketing eu acompanho. O nome da bola oficial da Copa '18 ficou sem graça demais. Já era o tempo do capricho: de Tango na Argentina e Espanha; da Azteca no México; de Jabulani na África do Sul; da Brazuca no Brasil etc. 



Esse povo da Adidas - tão criativo, que faz as camisas mais lindas do futebol - não conseguiu inventar um nome que preste pra Copa deste ano? TELSTAR 18?! Jura?! Falam que é uma homenagem à bola do mundial de 70 - a primeira batizada. De batismo eles entendem por aqui. Batizam de tudo na Rússia.

Bebidinhas, comidas, fuminhos, esteroidizinhos...

A TELSTAR original foi uma homenagem à primeira Copa transmitida via-satélite e em cores - seria algo como "estrela da televisão". Hoje a gente vê a Copa até no celular, mas a vedete, pra Adidas, ainda é a TV. Vai entender!
TELSTAR18: clima de Tri pra exorcizar os 7x1

Bom que esse espírito de 70 tome conta e o Brasil, que me recebe sempre tão bem, possa ganhar mais uma Copa. Como se fizesse alguma diferença pra mim, pra você, pra todo mundo. Eu quero é festa. Hoje tem Portugal e Espanha. Paella e bacalhoada, com muita vodka. Uhuuuuulll!!! Minha entrada pra comemoração, de onde seja, está garantida.

Zabivaka foi flagrado pegando no Pistola: na Rússia, não pode

O cara do Zabikava esqueceu a cabeça da fantasia aqui no hotel... auuuuuuuuuuuuu...


PS: No bolão, apostei cenzinho nos portugas e mais 100 nos uruguaios; cravei também cinquentinha nos tão combatidos jamais vencidos torcedores do Raja




Bob LeMont 
provavelmente, é um personagem fictício
certamente, nunca jogou ou sequer chutou uma bola na vida
mas chorou, revendo o vídeo do Misha



14/06/2018

BOB NA COPA (03) - PUTIN, NA CADÊNCIA DO SAMBO

A Arena Lujnik, o Lujnikão, em Moscou: palco do jogo de abertura da Copa

MOSCOU, ROLETA RUSSA - 14 JUN 2018 - Descobri o motivo da agitação toda aqui na capital russa. Infelizmente, tem mesmo a ver com futebol - aquele esporte bárbaro e violento dos cucarachas- macaquitos-latinos-comunistas. A Rússia resolveu bancar uma Copa do Mundo inteira. Certamente, viu que o negócio na última Copa foi bom e quis também. Estádio de 300 mil que sai por um bilhão - quem não quer? Graças ao sucesso do modelo 2014, todos os países corruptos do planeta vão querer sua própria Copa do Mundo daqui pra frente. Aliás, vocês viram quem vai sediar em 2026?

Ouvi dizer que até o Vaticano já está conversando com a FIFA.

Então! Dizem por aqui que a Copa será a cerejinha no bolo dos novos tempos, que nem são tão novinhos assim. A Rússia disse "Tchau, querido!" pro regime comunista em 1991, depois de 74 anos.  Antes presa na gaiola, a Perestróika da vizinha ganhou as ruas e libertou o povo das garras da ditadura do proletariado de Lênin, Trótski e cia. O capitalismo chegou chegando. Aquela sociedade quase feudal e supostamente ateia, acostumada a poucos luxos, finalmente seria salva pela chegada da Pizza Hut, KFC, Subway e todas delícias que o deus Grana - combatido e renegado por décadas - podia pagar.   

O problema é que não havia capital pra todo mundo. 

Foto de um cidadão Russo antes e depois do governo do PT na Rússia: é bonito isso?!
E os novos tempos trouxeram também os quatro cavaleiros do capitalipse: a inflação, o desemprego, a recessão e ela, a corrupção da massa. Só na virada do milênio a coisa deu uma melhorada. Tudo graças à mão forte do meu grande amigo Vladimir Putin. Ele está no comando desde 1999, intercalando cargos de primeiro ministro e de presidente. Lembro bem: começou na KGB, onde se desenvolveu como mestre de artes marciais. É bom de Judô e tem Sambo no pé.  Sambo é o xará-nada-a-ver-porradeiro do samba. 

Chora, cossaco!!!

Gente boa. A última vez em que estivemos juntos foi em 2013. Ele tava solteirão, e mostrou pra mim como que a tcheka se tornou a solução pros problemas da Rússia. Calma! A Tcheka velha de guerra era o nome do primeiro serviço secreto russo. Hoje é sinônimo de linha dura. O governo tá cheio de tchekistas, os Siloviki, amigos pessoais do presida. Quase todos ex-agentes ou com a mesma pegada forte de Putin. Pra muitos, um grosseirão que paga pau pra terroristas, revoltosos e qualquer um que atrapalhe sua gestão. Quem tem amigos, tem tudo.

Mas melhor mesmo é não ter inimigos.

Assim, regulando (até mandando prender) opositores e com as bênçãos de toda uma "nova" elite do país (em especial aquela que acende muitas velas para o deus Mercado Financeiro), Putin vai deixando a Rússia muito mais cheirosa e gostosa. Mesmo que isso custe a transparência, que deveria ter vindo após a queda da cortina de ferro. Falam que o governo oculta privilégios e abafa denúncias recorrentes sobre a corrupção e a ascensão de grupos mafiosos russos dentro e fora do país. 

Que bom que, pelo menos, não há mais aquela fedida ditadura do proletariado. 


Putin 4Px4P: Piano, Pesca, Porrada e Pintura - mas e a Tcheka?

Não que ele não seja popular. Adora pescar, curte música. Até toca piano, canta às vezes. Também pinta. E, nos bastidores, faz mágica. As más línguas dizem que ele esconde uma grande fortuna em algum lugar. Coisa de milhões de dólares. Será? Nunca conversamos sobre isso. Ou se já, não me lembro. 

Falei que vodka ruim me causa amnésia? 

Tô sabendo que, entre os bens declarados, ele tem dois carrinhos velhos, um apê de 77 m2 e pouco mais de 200 mil pilas americanas no banco. Aí falam dos 11 relógios de ouro que ele tem e que não entram no espólio blah blah blah. Gente maldosa. 

Vai acabar entrando na roda de Sambo com Mestre Putin.

Esse pulso rico, certamente, não vê a hora de a tal da Copa do Mundo começar. A FIFA, que adora ver os outros gastando, encomendou 12 estádios. Desses, sete nasceram do zero. A seleção local pegou um grupo fraco e deve passar de fase, junto com o Uruguai. 

Cravei cenzinho no time da casa.

Manifestações na Rússia: #Mais3VodkaMenos6Copa - também não entendi

Pode ser que, depois de julho, esses estádios recebam outros esportes. Talvez emocionantes partidas de Bandy - a verdadeira paixão nacional deles, uma mistura de hockey com futebol. Ou mesmo de Curling, aquele esporte dos enxugadores de gelo. Ainda tem a Liga de Luta com Tigres Siberianos - o TSC*, versão russa do UFC. Ou Judô. 

Ou Sambo!   

Por agora é só futebol na veia. Não pode é deixar a pátria-mãe mal falada. Os caras são linha dura e estão de olho em tudo. Dizem que nem os blogueiros escapam. 

Desses lindos. 



*claro que ele inventou isso... tudo isso...







Bob LeMont estará de volta em O Lobo do Parque Gorki
provavelmente, é um personagem fictício
certamente, não sabe nada sobre o que está escrevendo
e, de vez em quando, fala umas verdades



13/06/2018

BOB NA COPA (02) - PARA LÊNIN & McCARTHY


Bob LeMont - ao centro - com Ana Botafogo e Mikhail Baryshnikov: ensaios no balé Bolshoi Kids


CIRCO DE MOSCOU, RÚSSIA - 13 JUN 2018  Amanheceu rápido demais, de ontem pra hoje, aqui na capital do arenque. O Russia Day bombou. Nome bem americanão, bem capitalista. Estão aprendendo. Feriado f$%& e que festão do %¨&*#, Dude!!! E festa é mesmo com a turma do PT daqui. Nooossa! que esse povo sabe comemorar  - igual lá no Brasil. Foi igualzinho quando a Dilma deixou o Aécio e o Luciano Huck com cara de Cuzaquistão*.

Só que com muito mais vodka e Balalaicas. 

Aécio e Huck no Dilma Day: olhando o festão dos outros, tomando no Cuzaquistão

Acordei tonto ainda, meio desnorteado. Ainda bem que não tá muito frio. Foram sete quadras de caminhada até o hotel. Pelado. Relax, aqui ninguém estranha nada. Um povo que tem o meu amigo Putin como presidente já teve todo tipo de sobressalto inimaginável. E é uma gente bacana demais, mega acolhedora. Desde a revolução, todo mundo aqui é camarada. No meio daquela zorra reencontrei amigas das antigas, do meu tempo de Balé Bolshoi. Fomos atrás do Lago dos Cisnes. Acabamos afogando o ganso.

Obrigado, sempre, Tchaikovsky!

Moscou, neste verão, promete temperaturas máximas de uns 24 graus. Delícia. Se for acima de zero, tá de boa. Já peguei frio aqui que nem de blusa. Congela até a alma. Fiquei sem ver Bob Cabeçudo por quase três meses. Muita vodka com strogonoff e seguimos adiante. Parece que vai ter um evento grande na cidade, não sei o que é ainda. Gente demais nas ruas. Vi até brasileiros. Dei um dinheiro pros caras, que eu sei que não tá mole lá pelas bandas da Ilha de Vera Cruz. Perguntaram em quem teriam que votar. 

Eu hein...

Fila pra visitar o Mausoléu de Lênin: brasileiros achavam que era pra comprar gasolina e entravam

Passeio obrigatório, especialmente com roupas, é o Mausoléu do Vladimir Lênin. Meu parça de bola. Time da pelada nossa era eu, Lênin, Trotski e Molotov na zaga.  O Mol era um sujeito meio explosivo. Saudade deles - por onde andam? O Lênin eu sei, claro. Ele continua ali na pracinha vermelha. Vou lá, porque preciso concluir meu tour de múmias pelo planeta: primeiro foi a da Evita em Buenos Aires; depois o Homem de Grauballe na Dinamarca; teve ainda o Ramsés III no Cairo, o do Michel Temer em Brasília... rapaz, pra minha surpresa, descobri que o Michel tá vivo! O Brasil é o Brasil, né? Técnica impecável de embalsamamento. Nem precisa morrer. Ou precisa? 

Uhmmmm...

A fila é grande pra cacete. Como eu disse, a cidade está cheia - tomara que não seja por causa de nenhum jogo de futebol, poxa. Sabe? porque ninguém merece aqueles vândalos invadindo Moscou, uma terra tão civilizada. Mas há indícios: encontro mais brasileiros. Escondo a carteira. Nem todos são Lulopetistas. Alguns são Bolsonaristas, distraídos, achando que no fim da fila encontrarão corpo de um ídolo.

- Como assim? - estranhei, claro. Enquadrei o líder do grupo.
- John Lenin, em nome de Jesus! Eterno Beatle. Assassinado pelos comunistas, o corpo veio pra cá.
- É? Fez parceria com quem? - perguntei, pacientemente.
- Com o Paul McCarthy, ora!
- Quem?
- O do Macartismo, pô... pegou geral depois, por vingança...

Ah! Agoooora faz sentido.


Bustos dos heróis da Revolução: infelizmente, não há brasileiros vivos

Vida que segue. A fila também. É um programinha interessante, diferente, se você não está com muita pressa e tem um humor meio mórbido. Na verdade, são dois passeios em um - você vê o bom e velho Lênin e conhece, de tabela, o que rola em volta dos muros do Kremlin. Tem gente que fica imaginando quantas pessoas já foram metralhadas ali e fica fazendo foto no paredão, fingindo ser uma delas. Mas melhor não dar bobeira lá por muito tempo, não. 

Ou acaba acontecendo de verdade, tá? 

Ali do lado tem a tal da Necrópole da Muralha, onde estão os cadáveres de outros russos. Anônimos e famosos. Procurei aquele que trabalhou pro Chacrinha. Não achei. Só figuras políticas, como o bom e velho Brejnev, parça do Ronald Reagan; o cosmonauta Iuri Gagarin, que disse que a Terra era azul - era pra ter dito "vermelha", por isso mataram ele; e, claro, o grande Iossif Stálin. Ah, Ioio... quantos porres juntos! Aiai... enfim! ele chegou a ser embalsamado e colocado ao lado do Lênin no Mausoléu por anos. Mas mudaram de ideia, foi pra cova. Sei lá. Podem ter achado esquisito aqueles dois caras. Dois macho man da revolução, mesmo mumificados, deitados ali - juntinhos!

Depois precisamos conversar sobre a intolerância aos gays na Rússia.

Lênin e Stálin: juntos no Mausoléu, mas por pouco tempo
Dentro do Mausoléu não há muito o que ver, não. Só ele. Lênin. O túmulo fica bem no centro de um salão lindíssimo, que deve ter custado uma nota. Tá lá o caixão, aberto. E dá pra ver que tem um cara deitado nele, cercado por uma redoma transparente. Diz o guia que é à prova de balas. 

Me pergunto se meu bom amigo Lênin - Leni, para os íntimos como eu - tá morto mesmo. 

Pô! Se precisam tomar esse tipo de cuidado, ora!? Suponhamos: pode ser que o pessoal do MDB tenha dado a real sobre aquela fórmula de embalsamamento do Michelzão pros comunas. Rá! 

Pra mim, de noite, o Leni levanta e vai pra casa.
 

Junto com o Paul McCarthy, claro.


*ele quis dizer Cazaquistão... significa "cara de quem vai dar um Golpe logo depois"


Bob LeMont  estará de volta em "Na cadência do Sambo"
provavelmente, é um personagem fictício
certamente, nunca esteve na Rússia
ou é alguém que mente muito


12/06/2018

BOB NA COPA (01) - DE VOLTA A MOSCOU


Uma câmera na mão e vodka na cabeça: Bob na Copa é a certeza de que a coisa tá russa
 
"Minha vruska* canta
Vejo a Praça Vermelha
Estou, morrendo de sauvrutska**
Moscou do belo Kremlín
Onde tocou o terror Stalín"
 (Samba do Aeroflot - T.Jobim/B.LeMont)


MOSCOU CONTRA 007, RÚSSIA - 12 JUN 2018 -  A música me veio, assim que entramos no espaço aéreo da belíssima capital russa. Balbuciei os versos que lembrei. Há muito não a cantava. Composição minha e do Tom - por onde anda? - após uma noitada com muita vodka e strogonoff no Parque Gorky. Acho que no dia seguinte virou outra coisa, não me lembro bem. Conheço muito o país e é uma honra poder voltar aqui e falar sobre... sobre... o que mesmo? Desculpem. Serviram vodka Natasha no voo. Ou Natasha era a aeromoça? Enfim!

Vodka ruim me dá amnésia.

Lembro da primeira vez que estive em Moscou. A Praça Vermelha ainda era verde. Foi bem divertido, cara. A realeza dava festas incríveis. Mucho lokas. Muita vodka, sabe? Os caras tomavam purinha mesmo. Pedi limão e açúcar na minha - foi uma loucura. Todo mundo quis, até as romanovinhas - as jovens aparentadas do Rei.  Como que os caras não conheciam a caipiruski*, gente? Depois mudaram o nome. Ou não? Desculpem. Não me lembro.

Falei que vodka ruim me causa amnésia?

Você resistiria a esse olhar? Grigoriy Yefimovich, o Rasputin

Recordo, sim, de ter conhecido um tal de Ras...pu...tin... Rasputin! Isso. Cara mucho loko. Barbudão, sabe? Comia todo mundo. Vivia teso na corte do Tzar Nicolau. É Tzar e não Czar, ok? Muitos dirão que errei. Mas vem daí a expressão Tzão (teso na corte do Tzar), consagrada mais tarde pela internet. Chupa, Aurélio! Ah e o Rasputin não tinha só a barba enorme, não.  Pessoal fala muito de Pedro, o Grande? Rá - acho que não manjavam o Rasputão da massa. O bilauwski** dele tá até exposto no Museu do Sexo de São Petersburgo. Trinta centímetros, bicho!

Teria sido embalsamado ainda flácido? Mistério...

Rasputão e seu bilauwski: é mole?
Sim, aqui na Rússia existe um museu do sexo. Quem já levou muita ferrada valoriza - aprende, Brasil! Museu pra onde espero também mandar o meu próprio bilauwski um dia. Bob  Cabeçudo não se compara à múmia da benga de Rasputin, claro, mas fez sua historinha em Moscou. Só não fez mais porque chegou aquele pessoal do PT tocando fogo no palácio, avacalhando meu lance com a... com a...  enfim, uma irmã lá do Nico, que havia me convidado pra invadir a Xexênia dela. Não deu tempo. 

Tive que sair meio corrido.

Lembranças! Enfim... acabei de desembarcar no aeroporto. Não me perguntem qual. Sei que o nome é maior que o bilauwski do Rasputin. Fui alfabetizado em cirílico, mas faz tempo que não exercito. Lembro que tem o dobro de vogais do abecedário normal e o resto é consoante.  Acho que tem umas 30 letras, bicho! Tinha mais, mas consta que o Lênin mandou fuzilar. Letras de câmbio, parece. Pode ser conversa fiada. Não dá pra confiar em gente que come criancinha. 

Foi um padre que me contou.

Assim que me instalar no hotel, mando notícias. Cidade cheia, parece que vai ter algum evento grande. Não faço ideia. Uma coisa importante: evite os táxis moscovitas. Não usam taxímetro, um horror. É tipo depois de show de rock no Rio, sabe? Faz que nem eu: vai de Uber.  Não usa cartão não. Diz que vai pagar em dinheiro. Pede pra parar uns dois quarteirões antes. Aí pula do carro, nego, e sai correndo até o hotel. Corre, viu? Que os caras ficam muito bravos quando levam cano e, geralmente, são ex-atletas. Economiza, que vodka boa custa caro. 

E não dão amnésia. Te falei?


*bobagem, nem queira saber
**outra bobagem



Bob LeMont estará de volta em Para Leni & McCarthy
provavelmente, é um personagem fictício
certamente, não sabe nada sobre o que está escrevendo
ou é apenas um completo idiota


05/06/2018

SEQUELAS


"Para manter uma lamparina acesa, precisamos continuar colocando óleo nela!" A frase, atribuída a Madre Teresa de Calcutá (coisa de Google, nem sei se é verdade),  parece cair como uma luva pra indústria do cinema. O que separa os santos dos pecadores é a finalidade - e os estúdios não vivem de reza, nem fazem milagres. Se a chama acende na bilheteria, é preciso continuar alimentando o fogo da audiência. Por conta disso, blockbusters e cult movies ganham sequência(s) há mais de um século.

Por bem ou por mal. Fazer o quê?

Tudo teria começado com O Nascimento de uma Nação, de 1916. Lamentavelmente, as plateias adoraram aquela história dos tempos da Guerra Civil americana - ainda que recheada com muita estupidez. Mas muita mesmo. Não apenas pela guerra retratada em si, mas por ser extrema e irresponsavelmente racista. Pra se ter uma ideia do estrago, o filme foi responsabilizado pela volta da Ku Klux Klan após longo e necessário banimento. 

(Sic) Mesmo assim, pelo sucesso de bilheteria (consta que só superado por E o Vento Levou em 1939), ganhou uma sequência no ano seguinte, chamada de A Queda de uma Nação.  E caiu mesmo. 

Foi um fracasso.

Mas de lá pra cá, sem demonstrar qualquer remorso sobre qualquer tema (apenas mais cuidado) os estúdios não desistiram. Desde O Poderoso Chefão de Coppola, ou mesmo antes, já se sabia que era possível fidelizar as plateias de cinema em torno dos mesmos personagens. E foi graças a George Lucas, ainda nos anos 1970, que veio a certeza de que era possível faturar muito alto estabelecendo extensas franquias cinematográficas como Guerra nas Estrelas. E isso se deve bastante a uma sequência de sucesso. Não fosse o êxito de O Império Contra-Ataca, provavelmente não haveria o resto.

A mesma lamparina só permanece acesa com o combustível certo.

Que fique claro. Filmes de arte não precisam de bilheteria para se estabelecer, então ficam de fora desta crônica. As trilogias dos grande diretores, não necessariamente casadas, não entram nas minhas elucubrações. Até porque eu não vou falar daquilo que eu não entendo. Sou nerd, cultura Pop é mais minha praia. E também não sou especialista, não - só acho meu pitaco tão bom quanto o de muitos aí que eu leio. Como minha carreira literária, sequências não pedem vínculo artístico nenhum. Pode ser lixo, sim. A finalidade é fazer dinheiro.

Mesmo que custe o respeito dos fãs. Fazer o quê?

Inacreditável, por exemplo, ver Anthony Perkins como Norman Bates nos três filmes coloridos que carregaram o nome do icônico Psicose. Lançados entre 1983 e 1990, até que chamaram atenção - provavelmente no bojo de outras franquias de suspense/terror. Todos muito distantes do original - de 1960, dirigido por Alfred Hitchcock. Esse nem foi sucesso de bilheteria. Certamente, as sequências reuniram públicos bem maiores. 

 
E, ao menos, serviram de base pra boa série Bates Motel.

A gente sabe que o sucesso hollywoodiano não tem nada a ver com qualidade. Os filmes de terror da safra 1980-90s que o digam: Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Brinquedo Assassino - e outros - eram sempre mais do mesmo. Mas tiveram vida longa - vai entender! Não foi assim em outros gêneros. Foram muitos os filmes bacanas, iluminados por bilheterias generosas, que acabaram em blackout de público por conta de suas sequências. 

Na verdade, viraram sequelas.

A lista é grande. Até hoje, não houve um Superman que prestasse que não o de 1978 - e há quem diga que nem ele. O Alien e o Blade Runner originais, ambos do Ridley Scott, bem que poderiam ter ficado neles mesmos. E pra que fazer um novo Saltimbancos Trapalhões, meu Deus? O mesmo vale pras neochanchadas brasileiras chanceladas pela Globo Filmes. Fazer o que, se os produtores acreditam que podem seguir lucrando?  Essa certeza também já construiu imensos fracassos. 

Lembrei de alguns. Talvez você também recorde.



- A História de Oliver, de 1978, foi a malfadada tentativa de reativar a peninha do público pelo protagonista de Love Story. Viuvão, o personagem de Ryan O'Neil mostrava como a vida seguiu pra ele, vivendo seus conflitos por um novo amor, tentando se reconciliar com o pai etc etc etc.  Mas demorou demais - foram oito anos de hiato entre um filme e outro;


 
- Esse foi muito ruim! King Kong 2 veio após o remake de um clássico do cinema mudo, muito bem recebido pelo público em 1976. Mas a historinha da recuperação dele após a queda do World Trade Center, uma década depois, não convenceu. Muito menos a descoberta de uma "Queen" Lady Kong. Péssimo. Por esse e outros fracassos, o diretor/produtor Dino de Laurentiis faliu;


 
- Highlander tinha uma proposta bacana de ficção/fantasia. A mão boa na direção, o bom elenco e a poderosa trilha do Queen ainda permitiram uma sobrevida. Mas o roteiro da primeira continuação era um lixo: deram até um jeito de trazer de volta o personagem de Sean Connery, morto no filme anterior. E tudo virou uma bobaginha sci-fi nada a ver. A marca, sim, parecia imortal - desde 1986, foram cinco longas e até um seriado em 2007. Nenhum acompanhou o sucesso do original; 



- Grease II foi outro erro grotesco, coitado. Se o filme original já não era grande coisa, pelo menos conseguiu entrar pro imaginário do público por conta da poderosa trilha sonora. Obviamente, o carisma de John Travolta e Olivia Newton John ajudaram bastante. Mas eles ficaram de fora. Nem trilha sonora, nem mesmo a linda Michelle Pfeiffer, nada salvou o musical de um estrondoso fracasso. Mas há quem curta, né?;



- Depois do Oscar de melhor ator em 1978 pelos Embalos de Sábado à Noite, os estúdios tentaram ressuscitar o Travolta na década seguinte. O título em inglês - Stayin Alive - expressava isso muito bem - tô vivo! Mas a continuação foi um festival de equívocos. Imaginem Tony Manero, garotão do Brooklyn e ícone de uma geração perdidona, sarado e de sunguinha, dançando na Broadway? Nem os Bee Gees, que saíram do ostracismo graças aos Embalos originais, conseguiram erguer mais este. Mas há quem curta. Eu, por exemplo. Adoro a trilha. 

Fazer o quê...



por Bob LeMont

LINGUA

A língua, esse pedaço de carne cercado de gente por todos os lados.  A turma da biologia vai dizer que ela não passa de um processo muscular...